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Agricultura é sobre a Cultura da Terra: visão indígena Tingui Botó

Agricultura é sobre a Cultura da Terra: visão indígena Tingui Botó No nordeste do Brasil, no coração do interior de Alagoas, está o território do povo indígena Tingui Botó, descendentes da povo Kariri. São guardiões de 550 hectares, demarcados em 2006, localizados na transição entre os biomas da Mata Atlântica e da Caatinga, na bacia…

“Os nossos antepassados sempre praticaram o que hoje chamamos de Agroecologia. Nas últimas duas ou três décadas, a agricultura industrial introduziu um novo modelo, frequentemente promovido por meio de assistência técnica, que ensina os agricultores a comprar sementes, produtos químicos e fertilizantes, e a plantar monoculturas. Isso perturbou os ciclos naturais e a saúde da comunidade que conhecíamos.” – Jairã da Silva Santos Sampaio.

Mais do que um território de resistência, o território Tingui Botó é um laboratório vivo de regeneração ecológica e cultural. Os jovens da comunidade formaram uma associação e têm conduzido experiências inovadoras em Agroecologia, Sistemas Agroflorestais (SAFs), onde  revivem práticas ancestrais dos seus antepassados. 

Dança tradicional indígena Tingui Botó

Para saber mais sobre este trabalho agroflorestal, seu conhecimento ancestral e cosmovisão, conversamos com Jairã da Silva Santos Sampaio, agrônomo e membro da Associação de Jovens Produtores Indígenas Tingui Botó (AJPI-TB). Esta é uma das quatro organizações lideradas por indígenas no Brasil, que faz parte do Programa Florescer da Regenerosity. A AJPI-TB está entre um movimento emergente que centra a restauração biocêntrica como uma abordagem regenerativa para a mitigação climática, a regeneração da terra e a revitalização cultural.

Área do SAF em 15/abril e 15/agosto 2025

Sistemas de conhecimento indígena, orientam a regeneração natural

Jairã destaca que “A natureza é quem realmente faz a transformação na paisagem. A questão é como cuidamos da natureza. Dependendo de como o fazemos, a resposta da natureza será de uma forma ou de outra”. O Conhecimento Ecológico Tradicional orienta esse cuidado, manifestando-se na capacidade de ler a terra, compreender as necessidades e os benefícios ecológicos das plantas e os métodos de plantio.

Os Tingui Botó utilizam Sistemas Agroflorestais (SAFs) para preservar duas plantas de grande importância em sua cultura tradicional : a croà e o licurí. Pela perspectiva indígena, um SAF é muito mais do que apenas plantar árvores ao lado das culturas. É uma prática viva e relacional que entrelaça alimentos, remédios, água, saúde do solo, animais e pessoas, numa teia de reciprocidade que sustenta tanto a comunidade como o ecossistema para as gerações futuras.

O sistema agroflorestal implementado no projeto Florescer dos Tingui Botó é resultado de narrativas e trabalhos coletivos. Jairã relembrou o momento em que uma anciã compartilhou conhecimentos sobre indicadores naturais de água que, de outra maneira, passariam despercebidos. “Uma anciã da nossa aldeia identificou uma planta na área. Ela disse que, se aquela planta vivia ali, era porque havia água no subsolo. Mesmo antes do diagnóstico científico e da escavação, já sabíamos que haveria uma nascente ali. Após a escavação, vimos que não havia uma, mas duas nascentes.”

Jairã da Silva Santos Sampaio

A garantia de maior recuperação da água foi reforçada com o plantio estratégico de mudas de banana, pois a bananeira retira muita água do solo, o que evita inundações.
A batata-doce e outras culturas coexistem com espécies como o feijão-frade e crotalária — uma colaboração entre alimentos nutricionalmente densos e coberturas naturais do solo, que fixam nitrogênio, retêm umidade e enriquecem o solo.

O resultado é alimentos na mesa, junto a um território mais fértil, diversificado e resiliente.

“Utilizamos a terra e o território respeitando os seres vivos e não vivos. A intervenção antrópica, da nossa parte, foi pequena — é a natureza quem realmente faz a transformação.” – Jairã da Silva Santos Sampaio

Desafios e ameaças

O laboratório vivo dos Tingui Botó não é isento de riscos. A disseminação da monocultura de milho geneticamente modificado na região, ameaça contaminar variedades de sementes nativas e corroer a biodiversidade. A outra grande ameaça é a pulverização aérea de pesticidas, que destruiu plantações e apiários este ano, comprometendo a produção total de mel, que havia atingido meia tonelada em 2023-2024. Mesmo assim, o povo Tingui Botó não recua: denuncia os impactos da agricultura industrial, pressiona as autoridades para regulamentar os sistemas opressivos e reafirma que a sua agricultura é para a cultura da vida.

“Alguns de nossos vizinhos têm galinhas e patos. Então plantamos girassóis ao redor do viveiro para que os animais possam comer e não entrem para danificar as mudas. Pedimos gentilmente aos vizinhos, os que infelizmente se utilizam de sementes de milho geneticamente modificadas e pesticidas, que o façam longe da nossa área, para não envenenar o nosso solo. A nossa ideia é influenciar, mostrar que é possível nutrir os seres humanos e o solo sem pesticidas e devastação, com respeito pela natureza.”

Caminhos para a restauração biocêntrica: Reconstruindo o modo de vida

Os Tingui Botó investem num modelo que combina tradição e formas inovadoras, mostrando que as abordagens indígenas para restaurar os seus territórios são verdadeiros caminhos regenerativos para a segurança alimentar, a proteção da biodiversidade e a construção de um futuro justo para todos.

1. Descolonizar através do exemplo 
“Os anciãos sempre praticaram o que hoje chamamos de Agroecologia nos seus quintais. Nos últimos 20 anos, com o surgimento do agronegócio, outro modelo foi promovido: a monocultura, as sementes geneticamente modificadas, os insumos químicos, uma ‘agricultura’ baseada em plástico. Isso influenciou os nossos agricultores, que agora compram sementes, pesticidas e fertilizantes e praticam a monocultura.”

A comunidade está agora  trabalhando para reviver métodos ancestrais, integrar abordagens modernas mostrando que a produtividade não requer a compra de pacotes do agronegócio. Para os povos indígenas, a agricultura não tem a ver com lucro, mas com a sustentabilidade dos alimentos, da cultura e da vida.

2. Restaurar  polinizadores
“Por meio da nossa parceria com a Embrapa Alimentos e Territórios na cidade de Maceió, a nossa comunidade conseguiu fazer a transição de coleta extrativa de mel para um apiário organizado com 40 à 50 colmeias, alcançando uma produção robusta. A nossa marca local de mel agora é exibida em feiras e conferências.”

Apesar da experiência com pesticidas, a AJPI-TB prevê que a produção provavelmente será retomada nos próximos anos, à medida que as abelhas retornam ao território. Esses polinizadores essenciais contribuem para a saúde de 90% das espécies vegetais.

3. Redes indígenas de regeneração

Jairã está na vanguarda da Agroecologia liderada por indígenas. Trabalha para destacar os povos indígenas e todo o conhecimento ecológico ancestral do movimento. Ele organiza a participação indígena no Congresso Brasileiro de Agroecologia, que em outubro deste ano, esteve na emblemática cidade de Juazeiro, na Bahia.

Por meio do Programa Florescer, o Tingui Botó se conectou com outras comunidades indígenas, incluindo os Kariri Xocó, Marajó e Xucurús. Essas comunidades se reuniram no congresso para trazer suas perspectivas ancestrais e aprender umas com as outras.

Agricultores jovens e mais velhos do programa e de muito além dele, demonstraram  como suas iniciativas se interconectam, compartilhando resultados que comprovam que a Agroecologia funciona. Juntos, eles defendem políticas públicas que apoiem as práticas agroecológicas — essenciais para enfrentar os desafios climáticos e sociais que afetam os povos das águas e das florestas e, em última instância, toda a vida na Terra.

Uma mensagem para o mundo de Tingui Botó

“Agricultura é inseparável da cultura, como a própria palavra revela. Não se trata apenas de produzir alimentos. Ela também produz vida, conhecimento, água, relacionamentos.”

O nosso projeto procura recuperar e ressignificar o nosso conhecimento ancestral, acrescentado à modernidade. Para nós, o objetivo da Agricultura não é o lucro. Preocupamo-nos em cultivar alimentos para nos alimentarmos e alimentar todos os seres do nosso território. Com o que nos alimentamos? Qual é a diversidade da nossa dieta? Como é que o produzir se relaciona com a nossa cultura alimentar?

Horta agroecologica da juventude

A mensagem que queremos partilhar com o mundo é que a Agroecologia, enraizada no conhecimento dos povos tradicionais, tem o poder e a potência de tornar outros mundos possíveis. Mundos onde a natureza regenera a vida em todos os níveis, auxiliada por intervenções humanas leves, enraizadas num profundo conhecimento ecológico.”

– Jairã da Silva Santos Sampaio em nome da Associação de Jovens Produtores Indígenas Tingui Botó

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